Resenha: Cela Forte Mulher

Hello!

As pessoas mais fascinantes que eu conheço leem, e leem muito. São aquelas que têm um bom papo, se enturmam em qualquer roda, conversam sobre tudo, têm conteúdo e sempre algo interessante a acrescentar. Então, garota, LEIA!

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Este livro estava nos textos de referência do meu trabalho da disciplina de criminologia da faculdade. O tema do trabalho era “Criminalidade e mulher: sexismo, vitimização e a relação com o universo do masculino”. Essa disciplina é oferecida como eletiva na minha faculdade, mas sempre tive vontade de fazer porque meu professor de Direito penal fazia muita propaganda e também porque todos que já tinham feito falavam que eu me identificaria. Eu adorei cursar essa disciplina, foi muito importante academicamente e também para minha vida pessoal. Super recomendo =D

Voltando ao livro… Vou tentar colocar aqui mais que uma simples resenha, mas sim um convite para reflexão! Espero que vocês gostem e leiam o livro depois, viu?

Para começar, gostaria de chamar atenção ao tema do meu trabalho: “Criminalidade e mulher: sexismo, vitimização e a relação com o universo do masculino”. Para melhor exemplificar o que iremos abordar, vou conceituar cada palavra que compõe esse tema.

 

  • Criminalidade: qualidade ou estado de criminoso

 

  • Mulher: pessoa do sexo feminino, que passa por uma questão de gênero. Sendo assim, é uma construção social que permite que esta exerça um papel na sociedade. Como na famosa frase da Simone Beauvoir “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” A mulher não tem um destino biológico, ela é formada numa cultura que define qual o seu papel no seio da sociedade.

 

  • Sexismo: conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro sexo. Sendo que o sexo está mais ligado à questão biológica, uma pessoa pode ter uma vagina e não ser mulher.

 

  • Vitimização: Ato ou ação de se fazer de vítima. Uma pessoa que sofre de forma direta ou indireta uma violência.

 

Ao estudar a bibliografia deste trabalho, percebi que a palavra vitimização a que se refere o tema está relacionada à forma como o direito penal trata a mulher. Os crimes praticados excepcionalmente por mulheres no Brasil se relacionam a distúrbios físicos e emocionais. Isso porque, nos anos 40, década em que foi elaborado nosso Código Penal, quando se pensava nas mulheres, associava-se a sua imagem a um símbolo angelical, de modo que se pensava que elas não tinham a capacidade de praticar crimes ou atos de violência. Quando agiam de forma considerada fora de seus padrões normais, como por exemplo, na gravidez, no parto ou na menstruação, elas eram tratadas como se estivessem doentes ou com raiva, mas nunca como se tivessem o “instinto ruim”. Assim, as mulheres passaram a ser consideradas vítimas de distúrbios psicológicos e alterações hormonais.

Os modelos de feminino e masculino têm mudado, e cada vez mais presenciamos uma reestruturação dos papeis sociais de homens e mulheres. Entretanto, essas mudanças não foram suficientes para uma equidade de direitos efetiva entre os sexos. Desde o século XIX, muitos avanços permitiram que as mulheres ganhassem voz, mas discursos machistas ainda se mostram presentes em diferentes esferas das relações sociais; ainda restam muitos resquícios de toda essa história de opressões.

Em geral, a criminalidade feminina é tratada de forma genérica, não havendo uma preocupação em individualizar as características, causas e problemas sobre a mulher delinquente.

Existe pouco material que trate a respeito da delinquência feminina. A razão principal desse escasso interesse pela delinquência feminina, para autores mais recentes, está ligada à discriminação, ao preconceito arraigado que, não obstante a regra de igualdade entre homens e mulheres perante a lei, ainda o que predomina é a visão machista sobre a condição feminina. Sendo assim, a criminalidade feminina copiaria os aspectos gerais da criminalidade masculina, ou seja, seria em tudo parecida à do homem.

Para ilustrar essa vitimização, usarei o livro Cela forte mulher, em que o autor Antonio Carlos Prado relata seus sete anos de experiência como voluntário em penitenciárias femininas. O livro compreende histórias de violência, sofrimento e falta de esperança, mas também de solidariedade, amor e humanidade, mostrando que a mulher tem o seu lugar na sociedade, sabe o que faz e tem capacidade para até cometer crime.

O Antônio Carlos Prado, autor do livro, narra, em cada capítulo, a história de uma presa. Ele usa a expressão “imantada” para se referir as mulheres que se parecem com um imã, pois essas são capazes de atrair as pessoas com seu olhar, seu charme, suas palavras… Vale a pena ressaltar que a atual população de mulheres em situação de prisão hoje é de jovens, afrodescendentes e, na maioria das vezes condenadas pelo tráfico.

Dessa forma, o autor do livro define uma mulher imantada nas seguintes palavras: “Elas têm olhos de vidro, vidro claro, vidro verde, vidro castanho, vidro negro, as mulheres imantadas têm olhos de vidro duro de bola de gude, e sabe usá-los como gente grande a convidar ao jogo de troca de olhares. Se são iguais no olhar, também trazem na boca uma mesma palavra: “adrenalina”. Olhos e bocas e mãos. Das imantadas emana uma tentação, um convite mudo: entrar em suas vidas. Gostar de suas vidas. Custe o que custar. E custa muito” (página 17).

No livro, o autor relata que as mulheres em situação de cadeia são mais abandonadas do que os homens quando vão para prisão, poucas recebem visita do companheiro e da família, ao contrário dos homens que recebem visitas regularmente. Além disso, um número significativo de mulheres não recebe qualquer tipo de visita.

Conforme o exposto percebe-se que há, socialmente maior tolerância com o homem que comete crime do que com a mulher. Numa pesquisa realizada pelo DEPEN (DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL – 2008), quando um homem é preso a esposa procura um advogado para tentar tirá-lo da cadeia, quando uma mulher é presa, o marido procura um advogado para tratar do divórcio. Fica fácil perceber por meio dessa pesquisa que a mulher que comete crime rompe com o estereótipo do que “é ser mulher” (frágil, meiga, dedicada, companheira, fofa, delicada, amável…) sendo, a partir de então, excluída pela sociedade.

As mulheres presas estão, na maioria das vezes, se colocando em uma posição de objeto. No livro, o autor narra que todas as mulheres, em algum momento da sua passagem pelo presídio, repetirão a posição de objeto que um dia já foram colocadas, isso pode ter acontecido por alguém da família ou não. No presídio, isso se evidencia através dos relacionamentos entre as mulheres, onde elas submetem às ordens de outra, voltando à posição de objeto.

Algumas histórias narradas no livro evidenciam que várias mulheres que foram presas após sofrerem violência doméstica, intra familiar, abusos sexuais, dentro de casa ou não. Não se trata de justificativa para a delinquência, apenas a relação do crime como uma resposta a sua vivência conflitiva e seus dilemas subjetivos. Historicamente essas mulheres sofrem com o machismo.

Não há que se falar que todas as mulheres são mais ou menos suscetíveis ao crime que os homens por sofrerem alguma desestabilização na vida. Não há que se falar em sexo frágil. Pode-se apenas trabalhar com estatísticas, pois cada sujeito é único e oferece respostas singulares as suas experiências. No livro, o autor relatou a ocorrência de mulheres que cometem crimes por terem sofrido muito durante a infância, mas também relatou casos de mulheres que tiveram uma infância saudável, financeiramente estável e que também foram presas, ou seja, essas fugiam a regra da delinquência como consequência.

O livro Cela Forte Mulher retrata a realidade do sistema penitenciário de São Paulo. Visando proteger a identidade das presas, o ator não particularizou o local. Contudo, buscando colher mais informações e encontrar algumas respostas, eu visitei o presídio misto da cidade de Mariana. Atualmente, o presídio tem cerca de 180 presos. Destes, 168 são homens e apenas 8 são mulheres, o número que chega no máximo a 13.

 

Para o diretor do presídio, Josibel Pereira da Silva, crime é uma escolha e o fato de não ter a mesma incidência feminina se justifica apenas por se tratar de um ser mais frágil, não possuir, como regra, força física e disposição além de menor habilidade com o manuseio de armas.

 

Para as psicólogas do presídio, Allana Dias e Cristiane Ferreira, o fato de haver menos mulheres incidentes na criminalidade do que homens, pode estar associado aos papeis desempenhados por cada gênero, sendo que em muitos circuitos sociais ainda prevalece o imaginário coletivo da posição provedora do homem e da domesticada mulher. Nesse sentido, é importante ressaltar que grande parte das detentas do Presídio de Mariana prticam crimes associados ao envolvimento com tráfico de drogas, muitas das vezes influenciada por seu parceiro, que exerce liderança sobre Esse fato evidencia a posição objetalizada que muitas mulheres ainda ocupam frente aos homens, principalmente pelo fato desses parceiros as abandonarem quando se encontram em cárcere privado.

 

Então, fica a seguinte questão: se o número de mulher é maior que o de homem, qual a razão da discrepância entre o número dos que estão presos?

 

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beijos, beijos

 

 

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4 comentários sobre “Resenha: Cela Forte Mulher

  1. Post muito interessante, não sabia que mulheres que cometem crimes são tratadas como quem sofre disturbio. Acredito que a diferença no número entre mulheres e homens que comentem crime é culpa da cultura machista que doutrina mulheres desde criança (como relado no livro de psicologia Garota fora do Jogo) a serem machista também, a repreenderem e julgarem a si mesmas; enquanto os garotos experimento a liberdade praticamente sem limites.

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    1. Para o direito penal, com código de 1940, elas eram tratadas sim =/ A sociedade, naquela época, era mais machista, patriarcal… Quero ler esse livro “Garota Fora de Jogo”, será que é fácil de achar para comprar? beijos, Lena, volte sempre ❤

      Curtido por 1 pessoa

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